às vezes o texto acadêmico
chega antes da terapia
e isso diz algo sobre a terapia ou sobre o texto? ainda não sei. provavelmente os dois.
Não vou fingir que li tudo.
Li o suficiente para parar no meio e ficar olhando para o teto do meu quarto por uns vinte minutos. Que, ironicamente, é exatamente o tipo de coisa que o texto estava discutindo.
(o teto do meu quarto.
que agora eu não consigo
olhar sem pensar nisso.)
Tem uma economista chamada Karolina Voss que perguntou, com dados e tudo, quem constrói o degrau para quem não consegue construir sozinho. É uma pergunta bonita e me deixou um pouco ansiosa porque eu reconheci que já precisei desse degrau várias vezes e nunca soube agradecer para quem estava construindo.
"Uma teoria de libertação que funciona para 21% da população não é teoria de libertação. É descrição de privilégio com linguagem filosófica."
— Karolina Voss, artigo que eu deveria ter lido por inteiro
Aí alguém me marcou nos comentários do artigo de um psiquiatra chamado Pedro Siloé que respondeu ela. Eu ia ignorar porque psiquiatra respondendo economista com a Bíblia parecia o início de uma discussão de avó no WhatsApp da família.
Mas não era.
Era isso:
JOÃO 11:35
"Jesus chorou."
o versículo mais curto da Bíblia
E o Pedro explicou que Jesus estava chorando sabendo que ia ressuscitar Lázaro. Sabendo que ia ficar bem. Mas chorando mesmo assim pelo peso do que estava ali.
eu já chorei assim.
sabendo que ia passar.
chorando pelo agora mesmo assim.
achei que era fraqueza.
aparentemente era bíblico.
Minha terapeuta chama isso de "estar no processo". Ela diz isso com uma voz calma que às vezes me irrita porque eu sei que estou no processo, o problema é que o processo dói enquanto está acontecendo mesmo quando você sabe que vai passar.
E o texto do Pedro, que é um psiquiatra católico que cita Frankl e Mateus no mesmo parágrafo, disse isso em duas palavras que dois mil anos de teologia não conseguiram melhorar.
a pergunta que não saiu da minha cabeça
Se Jesus chorou sabendo
que ia ficar bem —
isso significa que saber
que vai passar
não elimina o peso de agora?
eu mandei isso nos comentários do artigo dele.
ele não respondeu ainda.
mas 847 pessoas curtiram o comentário.
então aparentemente não sou a única.
O que me pegou — e que talvez só eu esteja vendo assim porque não sou especialista em nada — é que essa teoria que a Karolina critica e que o Pedro defende está tentando fazer com sistemas de poder o que eu tentei fazer com relacionamentos ruins a minha vida toda:
Dar nome para o que dói para que o que dói não pareça permanente.
teto não é para sempre.
mas enquanto está em cima
pesa como se fosse.
Eu não sei se o sistema do meu último emprego era um teto ou um andaime. Provavelmente era as duas coisas dependendo do dia. Mas sei que quando saí, senti aquele choro do João 11:35 — sabendo que ia ficar bem, mas sentindo o peso do que estava deixando para trás de um jeito que não cabia em nenhuma planilha da Karolina e nenhum versículo do Pedro.
Ou talvez coubesse. Talvez eu que não estava prestando atenção nos dois.
fiz essa pergunta nos stories e aqui estão os resultados:
"você já ficou num lugar que te deixava menor?"
a Karolina tem dados. eu tenho vocês. chegamos no mesmo lugar.
Os 9% que disseram "ainda estou" são os que eu pensei durante o resto do dia. Porque é difícil fazer a pergunta quando você está dentro. E mais difícil ainda quando o dentro é tudo que você tem no momento.
Não tenho solução para isso. A Karolina tem dados. O Pedro tem versículos. O Kaito tem cases de startups. Eu tenho essa sensação de que entendi algo sem conseguir explicar completamente o quê.
Mas talvez seja isso. Talvez o ponto seja exatamente esse.
todo teto um dia vira chão.
e enquanto isso, o joão 11:35 existe.
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